O Brasil, com sua imensa extensão territorial e uma extraordinária diversidade de biomas, como a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, o Cerrado e o Pantanal, abriga uma fauna igualmente rica e diversificada. Nesse ambiente, inúmeras espécies convivem em seus habitats naturais, algumas delas, inevitavelmente, entrando em contato com os seres humanos.

Esses encontros podem acontecer tanto em áreas urbanas quanto em regiões de mata, campos e terrenos com vegetação. E, entre os animais que podem representar riscos à nossa integridade física, estão as serpentes peçonhentas, responsáveis por milhares de acidentes todos os anos no Brasil. Trata-se, inclusive, de um importante problema de saúde pública.

Os números mostram a importância da prevenção

Segundo levantamento divulgado pelo Instituto Butantan, com dados do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 31.735 notificações de acidentes com serpentes peçonhentas e 127 mortes em 2024.

Além dos óbitos, esses acidentes podem provocar complicações graves, como infecções secundárias, insuficiência renal, necrose dos tecidos e, em situações mais severas, amputações.

Entre os acidentes registrados, predominam aqueles provocados pelo grupo Bothrops, que inclui serpentes conhecidas como jararaca, jararacuçu e urutu ou cruzeira. Em seguida, aparecem os acidentes com cascavéis. Surucucus e corais-verdadeiras também causam acidentes, embora sejam menos frequentes.

Outro dado que merece atenção diz respeito às partes do corpo atingidas: pés e pernas concentraram mais de 60% das picadas no levantamento de 2024. É justamente por isso que a proteção dos membros inferiores merece atenção.

O risco também existe perto das cidades

No cenário nacional de 2024, 75% das notificações ocorreram em áreas rurais e 20% em áreas urbanas, segundo os dados apresentados pelo Butantan.

Entretanto, há diferenças regionais. Um estudo sobre o estado de São Paulo, que analisou notificações entre 2010 e 2022, identificou 55% dos acidentes em áreas urbanas ou periurbanas.

Isso reforça que os cuidados não devem se limitar às grandes expedições. Terrenos com vegetação, entulhos e áreas próximas de ambientes naturais também exigem atenção.

Como se proteger em campos, matas e trilhas

Diante desse cenário, fica evidente que precisamos redobrar os cuidados ao frequentar matas, campos, trilhas ou mesmo terrenos com vegetação.

Utilize calçados fechados e equipamentos de proteção apropriados, como botas de cano alto e perneiras indicadas para essa finalidade. Não se deve confiar apenas na calça jeans como proteção contra picadas.

Outra regra fundamental é nunca colocar as mãos ou os pés em locais onde não seja possível enxergar o que existe. Observe o caminho e tenha cuidado com buracos, folhas acumuladas, troncos e materiais empilhados.

Ao encontrar uma serpente, mantenha distância e permita que ela siga seu caminho. Não tente tocar, capturar ou matar o animal.

E se, apesar dos cuidados, acontecer uma picada?

Nesse momento, é fundamental manter a calma e agir corretamente. Procure atendimento médico imediatamente.

Enquanto organiza o socorro:

  • Mantenha a vítima em repouso, evitando que caminhe ou corra.

  • Retire anéis, pulseiras, calçados apertados e outros objetos que possam comprimir o membro em caso de inchaço.

  • Se possível, lave o local com água e sabão, sem atrasar o transporte.

  • Mantenha o membro atingido elevado, conforme orientação do Ministério da Saúde.

  • Se for possível fotografar a serpente com segurança, faça o registro sem se aproximar e sem atrasar o atendimento.

Não faça torniquetes, não corte o local, não tente sugar o veneno e não aplique pomadas, produtos ou receitas caseiras. Não ofereça bebidas alcoólicas.

A fotografia pode auxiliar a equipe médica, mas não é condição para receber tratamento. Não perca tempo tentando capturar o animal.

Atendimento rápido faz diferença

O tratamento com soro antiofídico, quando indicado, é realizado em serviços de saúde e disponibilizado gratuitamente pelo SUS. Como nem toda unidade possui o soro, vale conhecer antecipadamente os pontos de referência da região que você pretende visitar.

Em uma emergência, acione o SAMU pelo 192 para orientação e socorro.

Chás, garrafadas e outras soluções caseiras não neutralizam a peçonha e podem atrasar o tratamento adequado. Torniquetes e cortes também podem agravar as lesões.

Os dados de 2024 divulgados pelo Butantan mostram uma associação importante entre demora e gravidade: a letalidade foi de aproximadamente 0,29% entre os atendidos em até três horas e de 1,13% quando a espera ultrapassou 12 horas.

Esses números reforçam a urgência: não espere sintomas aparecerem ou piorarem para buscar atendimento.

Respeitar a natureza também é se prevenir

Mesmo que você não seja um aventureiro ou explorador da natureza e apenas goste de passear pelos campos, trilhas e matas, não subestime os riscos.

A natureza é um patrimônio extraordinário, que merece ser apreciado e respeitado, mas também exige cuidados e atenção.

A prevenção continua sendo o melhor caminho. Informe-se, proteja-se, observe o ambiente e, acima de tudo, respeite os animais e seus habitats. Assim, poderemos desfrutar das belezas da natureza com muito mais segurança.

Escrito por Erni Bender


Fontes de consulta